segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Análise 01 - Alguma Poesia


Publicado em 1930, Alguma Poesia é o livro de estreia de Carlos Drummond de Andrade. Contém poemas escritos desde 1923, alguns deles publicados anteriormente, como é o caso do célebre 'No meio do caminho', que, logo após a sua publicação, suscitou uma série de polêmicas.

Alguma Poesia continua os experimentos estéticos dos modernistas da Semana de 22, sobretudo de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. Mesmo assim, neste primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, há uma série de características que o diferenciam da poesia modernista de 22 e serão aprofundadas em seus livros posteriores.

A estética modernista em Alguma Poesia 

Em Alguma Poesia, Drummond adota vários procedimentos modernistas: 
• Adoção do verso livre (sem métrica e sem rima); 
• Aproveitamento da oralidade; 
• Adoção de processos típicos da prosa (o prosaísmo); 
• Supressão da pontuação (vírgulas e pontos); 
• Paródia; a linguagem telegráfica (a preferência pela parataxe e pela concisão semântica); 
• Poema-piada; 
• Incorporação de temas ligados ao cotidiano; 
• Nacionalismo crítico; 
• Uso sistemático da metonímia; 
• Uso de elipses e a justaposição de frases nominais; 
• Simultaneísmo cubista.

A inovação em Alguma Poesia

Por outro lado, o livro apresenta inovações e características desenvolvidas em obras posteriores e marcantes da personalidade literária de Carlos Drummond de Andrade:

• Repetição sistemática de vocábulos associada à visualidade do poema; 

• Valorização da experiência, do fato em si; 

• Estilo mesclado, em que temas elevados são tratados com linguagem coloquial, causando um efeito cômico e paródico; 

• Certo ceticismo e a rejeição de qualquer ideologia; 

• Tópica do conflito entre o eu e o mundo, em que já se manifesta o tema do gauchisme (desajustamento), que será amplamente desenvolvido no transcorrer de toda a obra do poeta; 

• Adoção de temas ligados ao conflito existencial e às questões políticas e sociais (temas que serão aprofundados em A Rosa do Povo e Claro Enigma). 

Matéria de poesia: a temática do poeta 

Alguma Poesia é um conjunto de 49 poemas que podem ser divididos segundo uma classificação temática feita pelo próprio poeta, para a edição da Antologia Poética, publicada em 1962. Nessa classificação, sua obra é subdividida em nove categorias temáticas. Seus "pontos de partida ou matéria de poesia" são: 
• O indivíduo; 
• A terra natal; 
• A família; 
• Os amigos; 
• O choque social; 
• O conhecimento amoroso; 
• A própria poesia; 
• Exercícios lúdicos; 
• Uma visão (ou tentativa) da existência. 

Desses nove grupos temáticos, só um deles está ausente de Alguma Poesia, os amigos, embora não faltem poemas dedicados a eles – há até um poema cuja dedicatória aparece no título do texto ("Epigrama para Emílio Moura").

Esses grupos temáticos, no entanto, se entrecruzam e se associam a temas mais amplos, como a relação entre o eu e o mundo, o conflito entre o mundo moderno, urbano e o mundo provinciano, rural, o conflito entre o passado e o presente etc.

A temática da obra

Conforme a classificação temática acima, os poemas de Alguma Poesia podem ser distribuídos da seguinte forma: 

TemaPoema
O indivíduo
Poema de sete faces; Também já fui brasileiro; Europa, França e Bahia; Moça e soldado; Música; Explicação.
A terra natal
Lanterna mágica; Igreja; Festa no brejo; Jardim da praça da Liberdade; Cidadezinha qualquer; Fuga; Cabaré mineiro.
A família
Infância; Sweet home; Família; Sesta.
O choque social
Política; Poema de jornal; Nota social; Coração numeroso; O sobrevivente; Anedota búlgara; Sociedade; Outubro de 1930; Poema da purificação.
O conhecimento amoroso
Casamento do céu e do inferno; Toada do amor; Cantiga de viúvo; Sentimental; Esperteza, Quadrilha; Iniciação amorosa; Balada do amor através das idades; Quero me casar.
A própria poesia
Poesia; Poema que aconteceu.
Exercícios lúdicos
Construção; Política literária; Sinal de apito.
Uma visão (ou tentativa) da existência
No meio do caminho; Cota zero (este poema pode também integrar o grupo temático "exercícios lúdicos").


Homem–mundo: "Poema de sete faces"


O "Poema de sete faces" é o texto de abertura de Alguma Poesia e tornou-se tão célebre quanto "No meio do caminho". É um dos poemas mais conhecidos e comentados da obra de Drummond. Apresenta um dos temas centrais da poesia drummondiana, a relação difícil e conflituosa entre o indivíduo e o mundo. Esse embate entre o ser e o mundo já se estabelece na forma: o poema é fragmentário, feito de rupturas e justaposições, refletindo a dificuldade de o indivíduo compreender e conceber o mundo de forma unitária e lógica. Como num retrato cubista, cada uma das estrofes do poema representa uma face dessa relação problemática entre um "eu todo retorcido" e o mundo. O poeta apresentado pelo poema é um poeta gauche, desajustado, inadaptado a um mundo que ele não compreende e, por isso, coloca-se à distância desse mundo, como mero observador, assumindo uma posição individualista e irônica. 


Para compreender melhor essas questões, vejamos o poema:


Poema de sete faces
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos!, ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”


Primeira face

O poema apresenta o poeta gauche, desajeitado, inadaptado. O poema inverte o tema romântico do poeta como o gênio incompreendido: o poeta altivo, grandioso, dos românticos, aquele que se mostra acima da mediocridade humana, é aqui apresentado, parodicamente, como um ser frágil, inepto, ridículo, inadaptado não pela sua altivez, mas pelo seu desajeitamento. A sua condenação não é obra de um deus que o consagra a ser o "iluminado", o "gênio", mas sim de um "anjo torto", um anjo que não vive no mundo iluminado e harmonioso dos deuses, mas na sombra, na obscuridade. 


Segunda face

Há uma ruptura na lógica do discurso: como numa montagem cubista, o poema introduz aqui o mesmo tema enfocado sob outro ângulo, como acontecerá nas estrofes subsequentes. O indivíduo desajeitado, o gauche da primeira estrofe é agora colocado diante do desejo amoroso. 

Anote!
Como em toda a obra drummondiana, o desejo amoroso é problematizado, tratado como algo incompreensível, que transfigura o mundo e o sujeito.


Terceira face

O poeta gauche mostra-se espantado diante de um mundo que ele não compreende ("Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração"). É como se o poeta buscasse e ao mesmo tempo desistisse de encontrar um nexo nas coisas aparentemente banais do mundo (o coração indaga, mas os olhos não perguntam nada). Por outro lado, a contraposição entre o coração e os olhos exprime o conflito entre o sentimento e o desejo ou entre o amor em sua acepção mais idealizada e o erotismo.  

Observe:
É interessante observar alguns recursos de expressão utilizados nesse poema. Na terceira estrofe, há o uso do recorte metonímico ("pernas brancas pretas amarelas"). A metonímia é uma figura de linguagem que consiste em identificar um objeto por meio de uma parte de seu todo: no poema, "pernas" se refere, metonimicamente, às pessoas que estão no bonde. Ainda nesse verso, a ausência de vírgulas é um recurso utilizado para criar a justaposição rápida de imagens e, com isso, sugerir a simultaneidade.

No primeiro verso da segunda estrofe, a imagem "as casas espiam os homens" pode ser interpretada de duas formas: ou como uma prosopopeia – figura de linguagem que consiste em atribuir qualidades animadas a seres inanimados ("as casas espiam") – ou como uma metonímia, em que o vocábulo "casa" se refere às pessoas que moram na casa.


Quarta face

O poema apresenta o confronto entre o eu e o outro, tema amplamente desenvolvido em livros posteriores de Drummond. Aqui o tema do desajustamento é reforçado: o "eu todo retorcido", o gauche da primeira estrofe é colocado diante de um mundo feito de convenções, de falsas aparências, simbolizado no poema pela imagem do "homem atrás do bigode", o homem forte, seguro, convencional, adaptado. 


Quinta face

O poema apresenta um dos temas mais frequentes na literatura contemporânea, o tema do homem "abandonado por Deus" em uma sociedade em que o avanço da ciência e da tecnologia colocou em xeque a noção de Deus. É importante observar que o poema faz uma referência às palavras de Cristo na cruz: "E perto da hora nona deu Jesus um grande brado, dizendo: Eli, Eli, lamma sabachthani? Isto é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Bíblia, Mateus 27:46).


Sexta face

O poema apresenta o tema do "espanto diante do mundo". O poeta gauche assume uma postura individualista diante do mundo: seus sentimentos, seus desejos, sua interioridade são maiores que o mundo ("mais vasto meu coração"). Há de se observar ainda o sarcasmo diante do esteticismo e das convenções literárias ("se eu me chamasse Raimundo / seria apenas uma rima, não seria uma solução"). 


Anote!
A afirmação "não seria uma solução" apresenta um tema que também será constante na obra de Drummond: o tema da aporia, da falta de respostas ou soluções para certos conflitos humanos.


Sétima face

Há, paradoxalmente, uma negação do arroubo sentimental da estrofe anterior ("mais vasto meu coração"). Aqui surge mais um tema que será constante na obra de Drummond: a negação da subjetividade; o poeta como que sente uma abjeção com relação a um eu que insistentemente invade seus poemas. (Sobre essa questão, é importante observar que, na primeira estrofe, o eu lírico do poema refere-se a si mesmo na terceira pessoa – "Vai, Carlos!, ser gauche na vida!"). Dessa forma, o eu lírico atribui o arroubo sentimental da estrofe anterior aos eflúvios lunares e à embriaguez ("mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo").


Há, portanto, no poema, um tratamento fragmentário e cubista do mesmo tema: o conflito entre o indivíduo e o mundo.    

Para lembrar
Na estética cubista, o objeto é representado sob diversos aspectos, simultaneamente, a partir de perspectivas diferentes. O Cubismo surgiu em 1907, com a tela Les Demoiselles d'Avignon, de Pablo Picasso. Na literatura, o grande representante foi Guillaume Apollinaire, com obras como Álcoois (1913) e Caligramas (1918).



A pedra no meio do caminho

O poema "No meio do caminho" foi publicado em 1928, na Revista da Antropofagia. O poema suscitou uma série de polêmicas. Carlos Drummond de Andrade, até então desconhecido, foi criticado e agredido por alguns, admirado por outros por conta desse poema. As manifestações foram tantas que o poeta, ao longo dos anos, colecionou um copioso material a respeito do poema, reunido em um livro publicado em 1967 (Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um Poema).

O poema de Drummond pareceu para alguns uma brincadeira irreverente e irresponsável, um acinte, um desrespeito à tradição literária, ao leitor e à própria poesia: um poema feito de repetições da mesma sentença ou das mesmas palavras, sem vírgula, com expressões coloquiais que põem por terra a norma-padrão da língua ("tinha" por "havia"; "nunca me esquecerei que" por "nunca me esquecerei de que").

Outros, porém, admiraram o poema e viram nele um grande poder de expressividade. Admiraram o poder de síntese do poema e seu conteúdo simbólico. Geralmente, a imagem da pedra foi interpretada como símbolo do obstáculo e do cansaço existencial. Houve também quem interpretasse a pedra como algum tipo de experiência vivida que jamais esquecemos, como algo que ficasse "engasgado na garganta" (essa interpretação é reforçada pela repetição do termo ao longo do poema).

Toda a estrutura formal e semântica do poema é baseada na repetição. A repetição excessiva causa um efeito de surpresa e acaba criando um significado novo, ou seja, a redundância ostensiva da mesma informação acaba criando um novo conteúdo informacional. Por outro lado, há o aproveitamento da forma gráfica da palavra, por meio da justaposição e da inversão de posição da palavra nos versos (quiasmo). Com essa exploração visual da palavra, o poema ultrapassa os limites do código verbal e torna-se um objeto simbólico. É interessante ainda lembrar que Drummond utiliza a mesma técnica da repetição em outros poemas, embora não de forma tão sistemática como nesse. 

É preciso observar, por fim, que "No meio do caminho" faz uma série de referências literárias. "No meio do caminho de nossa vida" ("Nel mezzo del camin di nostra vita") é o verso que inicia a viagem pelo inferno, purgatório e paraíso na grande obra de Dante Alighieri, A Divina Comédia. O poema faz ainda referência ao soneto Nel Mezzo del Camin..., de Olavo Bilac (1865-1918). Com isso, o poeta faz uma releitura irreverente da própria tradição literária. 

Província versus cidade grande

Há, em Alguma Poesia, dois eixos temáticos que se contrapõem e se entrecruzam: o mundo primitivo e provinciano da terra natal e a cidade grande, com suas máquinas, automóveis e desenvolvimento tecnológico. Nas duas pontas, o eu lírico assume uma atitude crítica e irônica. Tanto na província quanto na cidade, o homem está preso a um cotidiano repetitivo, em que nada de novo acontece, tudo resumido a uma mesmice sem fim. Na cidade grande, essa mesmice é representada pela repetição do movimento das máquinas, dos elevadores, da linotipo. Na província, essa mesmice é representada pela monotonia, pela falta de novidade e surpresa. 

Por outro lado, a crítica se amplia: a cidade grande oprime o homem com suas máquinas, seu ambiente inóspito; a cidade pequena oprime o homem pelo provincianismo, pela falta de novidade, pelo excessivo apego a certos valores que já não fazem sentido num mundo que vive profundas transformações. Toda essa dialética, de que o poeta gauche não vê saída e se sente oprimido tanto na província quanto na cidade grande, é sintetizada epigramaticamente em dois versos do poema "Explicação": "No elevador penso na roça / na roça penso no elevador".

"Cidadezinha qualquer"


No poema "Cidadezinha qualquer", o poeta faz um "cromo", um retrato da vida monótona de uma pequena cidade do interior. Esse poema tornou-se símbolo da temática da "vida besta", expressão desse sentimento de tédio, de falta de novidade, de uma vida sem surpresas, feita de coisas miúdas. É interessante observar que a repetição mais uma vez contribui para a significação geral do poema: a repetição da palavra "devagar" e da mesma estrutura sintática nos versos da segunda estrofe mimetizam essa atmosfera de monotonia e lentidão que o poema procura exprimir: 


Cidadezinha qualquer

“Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.”


É importante observar a concisão do poema, em que impera a parataxe. No terceiro verso da primeira estrofe, a enumeração de substantivos sem o uso da vírgula procura captar a cena de modo sintético (por meio do simultaneísmo e do recorte metonímico). É interessante ainda observar a tessitura sonora desse verso, construída por meio da aliteração e do jogo entre as vogais a abertas e a vogal o fechada. No quarto verso da segunda estrofe, a anadiplose ("devagar. / Devagar") visa um efeito de surpresa, introduzindo na cena um novo gesto, o de olhar, que se contrapõe ao de ir ("vai"), ambos expressando a mesma atmosfera de lentidão e monotonia: é como se a lentidão envolvesse a tudo e todos na cidadezinha, aqueles que agem ("vai") e aqueles que apenas olham. Há de se destacar a presença da metonímia (janelas por pessoas): "Devagar [...] as janelas olham". Por fim, ressalte-se que o poema nivela homens, bichos e coisas: "um homem [...] um cachorro [...] um burro [...] as janelas […]".

O conflito do provinciano

No poema "Coração numeroso", o vento que sopra na cidade vem de Minas e o eu lírico sente-se amargurado e melancólico ("a vida para mim é vontade de morrer") em uma cidade em que o indivíduo é anônimo e se sente solitário em meio à multidão ("e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro"). O poema, dessa forma, tematiza o típico conflito do provinciano na cidade grande.

Em "Rio de janeiro", o poema VII da série "Lanterna Mágica", o poeta provinciano se espanta diante da velocidade da cidade grande:

“Fios nervos riscos faíscas.
As cores nascem e morrem
com impudor violento.”


Esses e alguns outros poemas, como "A rua diferente" e "Construção", funcionam como um contraponto à monotonia e ao primitivismo de "Cidadezinha qualquer" e reafirmam o paradoxo do poeta, sintetizado nos dois versos acima mencionados ("no elevador penso na roça / na roça penso no elevador").


Para lembrar
Lançado em 1909 com o Manifesto Futurista, de Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), o Futurismo cultuava a vida moderna, as máquinas, os automóveis, a velocidade. Para entender melhor o Futurismo e seu culto à vida moderna, leia o trecho abaixo, extraído doManifesto Futurista: "Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre adornado de grossos tubos como serpentes de fôlego explosivo [...] um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia".
Filippo Marinetti

Nacional–estrangeiro

Em Alguma Poesia, há também a contraposição entre o nacional e o estrangeiro. Mais uma vez, o poeta se coloca de modo crítico e irônico nos dois pólos da questão: de um lado, rejeita o nacionalismo cego, isento de autocrítica; de outro, rejeita a submissão aos valores estrangeiros.


No poema "Também já fui brasileiro", o poeta assume uma posição crítica diante dos hábitos e costumes brasileiros, diante de uma espécie de nacionalismo alienante. O poeta não se deixa contaminar pelo pitoresco e se coloca à distância, acuado, com algo de amargo e cético:


“Eu também já fui brasileiro moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude.

Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam.”


No poema "Explicação", por outro lado, o poeta critica ironicamente a submissão aos valores estrangeiros: 



“Para mim, de todas as burrices a maior é 
suspirar pela Europa
A Europa é uma cidade muito velha onde só
fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que
passam a perna na gente.”


Essa mesma crítica aparece no poema "Europa, França e Bahia". Nele, o próprio eu lírico assume o "estrangeirismo" e, em uma espécie de devaneio, faz uma viagem pela Europa. No final do poema, é como se o poeta voltasse de seu devaneio à súbita recordação da "Canção do exílio", o célebre poema de Gonçalves Dias. Todo o poema possui um tom sarcástico e jocoso. Observe, no trecho que se segue, como certas palavras do poema demonstram o tom de sarcasmo e pilhéria (caranguejo, bolorentos, água suja): 


“Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como
um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.”


A técnica utilizada no trecho acima é típica da estética modernista: o poema é todo construído por meio da justaposição de imagens inusitadas ou de associações insólitas, que fogem à causalidade lógica. Essa técnica foi muito cultuada por correntes vanguardistas  como o Cubismo, o Futurismo e, sobretudo, o Surrealismo. 


Para lembrar
• O movimento modernista de 1922 tinha como uma de suas diretrizes resgatar a cultura nacional – o homem brasileiro, o folclore e os costumes nacionais foram os temas mais constantes na obra dos escritores modernistas. Em certo estágio do movimento modernista, houve uma ruptura entre os escritores: de um lado, o grupo Verde-Amarelo (Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia, Plínio Salgado) assumiu uma postura xenófoba e de total rejeição da cultura estrangeira; de outro, o grupo da Antropofagia (Oswald de Andrade, Antônio de Alcântara Machado, Raul Bopp) aceitava a cultura estrangeira, desde que "deglutida" de um ponto de vista crítico e "transformada" à luz da cultura brasileira, ou seja, a Antropofagia propunha um diálogo, de igual para igual, entre as culturas.

• O movimento surrealista surgiu em Paris e foi inaugurado em 1924 com o Manifesto Surrealista. Seu principal mentor foi André Breton (1896-1970). Influenciados pelas ideias de Sigmund Freud, os surrealistas propunham uma escrita que resgatasse os conteúdos do inconsciente. Dessa forma, cultuaram o sonho, a escrita automática (a escrita sob o influxo do inconsciente, sem a mediação da lógica e da razão) e o resgate da intuição, do instinto, do primitivo.


O elogio da experiência

Em Alguma Poesia, há uma tendência a rejeitar as abstrações e as sensações difusas. O poeta lida com situações concretas, coisas, fatos. Há, portanto, uma espécie de elogio da experiência, do vivido. O poeta está sempre à espreita, observando ironicamente os fatos da vida. Mesmo os poemas em que parece haver alguma generalização filosófica, as coisas são reduzidas à sua expressão mais concreta e imediata. Veja, por exemplo, o poema "Lagoa": 


“Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.
Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
e calma também.”


O mar representa o abstrato, o não-vivido, o longínquo. A lagoa, por outro lado, representa o vivido, a experiência. 


No poema "Festa no brejo", os sapos podem transcender a sua significação intrínseca e representar a condição do homem preso a uma série de amarras (sociais, políticas, existenciais); podem, ainda, representar o homem provinciano, preso aos costumes mais simples e primitivos. No entanto, os sapos podem, por outro lado, ser vistos como simplesmente sapos e nada mais. Ou seja, o poema parece fugir a uma significação mais abstrata e insiste em se prender aos fatos ou às coisas tais como são, despidas de qualquer valor filosófico, de qualquer transcendência.

No último poema da série "Lanterna Mágica", intitulado "Bahia", há como que uma síntese de todo esse elogio à experiência. No poema, o poeta se nega a escrever sobre aquilo que não conhece (de forma muito semelhante ao que vimos acima em "Lagoa"): 


“É preciso escrever um poema sobre a Bahia...
Mas eu nunca fui lá.”


Metalinguagem: poesia sobre poesia

O fazer poético é um dos grandes temas da poesia de Drummond. Em livros posteriores, principalmente em A Rosa do Povo (1945), há poemas metalingüísticos que se tornaram antológicos e figuram entre as mais belas peças da poesia brasileira contemporânea. Geralmente, nesses poemas, Drummond vê a poesia como um trabalho minucioso com as palavras, como uma construção, uma arquitetura – cabe ao poeta "lutar com palavras", procurar a forma exata, o sentido exato:


“Lutar com palavras
É a luta mais vã.
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã.”
("José", 1942)


No poema "Procura da poesia", de A Rosa do Povo (1945), Drummond afirma que a essência da poesia não está nos assuntos ou nos fatos; a essência da poesia está na palavra, ou seja, a poesia, antes de mais nada, é feita de palavras – cabe ao poeta desentranhar das palavras seus sentidos secretos por meio de uma elaboração minuciosa da linguagem: 


“Não faça versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
Não aquece nem ilumina.
[...]
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
[...]
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra [...]”


Paradoxalmente, em Alguma Poesia, há outra noção do fazer poético. No poema "Poesia", a poesia é vista como inefável, indizível – algo que as próprias palavras não alcançam. O poema existe independente das palavras:


“Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia desse momento
inunda minha vida inteira.”


Em "Poema que aconteceu", vemos justamente o contrário do que ocorre em "Poesia". O poema surge sem motivo e o próprio poeta não tem consciência de que está escrevendo. A poesia surge inesperadamente, de um estalo. Se em "Poesia", o poeta busca o poema e este lhe escapa, em "Poema que aconteceu", o poeta parece indiferente ao próprio poema: 


“Nenhum desejo neste Domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.”


Anote!
Em Alguma Poesia, o poema surge dos fatos, da mera observação da vida, independentemente dos esforços do poeta, da luta com as palavras.

A poesia lúdica

Oswald de Andrade

Oswald de Andrade 

Há de ressaltar, no livro, os poemas breves, epigramáticos e os poemas-piada. Esse estilo de poesia foi muito cultuado pelos modernistas, sobretudo por Oswald de Andrade. São poemas curtos, incisivos, sarcásticos, em que o riso surge de sua contenção linguística  o efeito é criado pela sugestão. Em alguns casos, o motivo do poema é um simples trocadilho; em outros, é uma pequena cena inusitada, recolhida da vida diária. Veja como, em "Cota zero", o poeta consegue, com poucas palavras, captar um instante da vida moderna e, ao mesmo tempo, enchê-la de significado (a dependência do homem moderno em relação à tecnologia, às máquinas): 


“Stop.
A vida parou
Ou foi o automóvel?”


A poesia social 

Em livros posteriores, sobretudo em Sentimento do Mundo (1940) e A Rosa do Povo(1945), Drummond escreveu vários poemas que tematizaram questões sociais e políticas. Aprofundou-se em sua obra o conflito entre o eu e o mundo. Segundo o crítico Affonso Romano de Sant'anna, no ensaio "Drummond: o Gauche no Tempo", nessa fase da poesia de Drummond, "o eu é menor que o mundo": 


“Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.”
("Mundo Grande", de Sentimento do Mundo, 1940)


Esses versos parecem contraditórios para quem, em Alguma Poesia, afirmou que seu coração é mais vasto que o mundo ("mundo mundo vasto mundo / mais vasto é meu coração"). Mas a contradição é um dos elementos que fascina na obra de Drummond: sua obra revela o que há de multifacetado no homem. Enfim, houve, nessa fase posterior da obra de Drummond, um profundo embate entre sua individualidade e o mundo: o poeta se viu dividido entre a urgência das grandes causas sociais, coletivas, políticas e a sua individualidade. Dessa forma, os temas sociais foram amplamente explorados em sua obra.

Em Alguma Poesia, há sinais dessa que será a maior poesia social da literatura brasileira. Em poemas como "Romaria", "Outubro de 1930" e "Poema da purificação", a temática social surge de forma bastante contundente e crítica.

Ironias com o amor

O amor, na poesia de Drummond, surge como algo problemático, incompreensível, que transfigura o homem e o mundo. Em Alguma Poesia, o poeta trata o amor de forma irônica, jocosa e debochada. O poeta se nega à exaltação amorosa nos moldes românticos. Há mesmo, em vários poemas amorosos, o estilo mesclado (temas sérios e elevados tratados com linguagem vulgar), como no poema "Casamento do céu e do inferno". Nesse poema, o poeta trata de temas elevados, como o amor, o sexo e a religião, com um tom galhofeiro e jocoso. O título alude a um famoso poema do poeta romântico inglês William Blake. Na primeira estrofe do poema, a lua, tema constante na poesia de exaltação amorosa, é "irônica" e "diurética", comparada a "uma gravura na sala de jantar". Ou seja, por meio do estilo mesclado, o poeta faz uma paródia da poesia de amor romântica e exaltada. Esse mesmo poema trata de um tema que é constante no livro, o conflito entre o sentimento amoroso e o erotismo: veja, por exemplo, como o poeta trata o erotismo no poema "Quero me casar". Há, por fim, vários poemas que tratam o amor sob o ponto de vista das convenções sociais.

Veja como, em "Quadrilha", o poeta tematiza o desencontro amoroso: 

IMAGEM 1


Observe como o poema imita a dança da quadrilha, aquela em que os casais se alternam. É interessante ainda ressaltar a forma como o poeta ironiza as convenções sociais (o casamento). Todos os integrantes da dança amavam, exceto Lili. Nenhum deles se casou, com exceção justamente de Lili. Ou seja, o poeta contrapõe o amor ao casamento (mera convenção social). Outro detalhe interessante do poema é que todos são tratados pelo prenome (João, Maria, Raimundo etc.) e somente o futuro marido de Lili é tratado pelo sobrenome (J. Pinto Fernandes) – o sobrenome geralmente se associa à noção de propriedade, de posição social, o que faz pensar que, no poema, o casamento é visto como uma mera instituição ligada ao status e aos interesses financeiros. Há, ainda, por outro lado, a questão existencial: o poema mostra como o destino frustra as esperanças e os sonhos das pessoas.


Vida e obra de Carlos Drummond de Andrade

Drummond, criança, em Itabira

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902, descendente de uma antiga família de mineradores e fazendeiros. Em 1916, deixou sua cidade natal para estudar na capital do Estado. Formado em Farmácia, não chegou a exercer a profissão, dedicando-se ao jornalismo. Depois de fazer contato com poetas modernistas de São Paulo, fundou A Revista em 1925 – primeiro jornal modernista mineiro. Trabalhou na grande imprensa de Belo Horizonte, nos jornais Diário de Minas e Minas Gerais.

Em 1934, mudou-se para o Rio de Janeiro, dedicando-se ao trabalho como funcionário público (chegou a ser chefe de gabinete do ministro da Educação Gustavo Capanema), ao jornalismo e à atividade literária. Exerceu funções burocráticas no serviço público até 1962.

Durante todos esses anos, manteve intensa atividade jornalística, publicando crônicas em diversos jornais do país. Dedicou-se também à tradução de grandes obras da literatura mundial. Morreu no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987. 

Publicou seu primeiro livro, Alguma Poesia, com 28 anos e, aos 60 anos, o poeta contava com dez livros de poesia: Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940), José (1942), A Rosa do Povo (1945), Novos Poemas (1948), Claro Enigma(1951), Fazendeiro do Ar (1954), A Vida Passada a Limpo (1959) e Lição de Coisas (1962). Esses livros foram coligidos, em 1969, no volume Reunião. Até 1980, Drummond publicou mais nove livros de poesia, entre os quais As Impurezas do Branco (1973) e A Paixão Medida (1980). Postumamente, foram publicados seus poemas eróticos, sob o título de O Amor Natural (1992).

Drummond ainda publicou um livro de contos (Contos de Aprendiz, 1951) e várias coleções de crônicas. O escritor tornou-se bastante popular com suas crônicas, apreciadas principalmente pelo humor e pela sensível observação do cotidiano.

Fonte: http://vestibular.uol.com.br 

Um comentário:

  1. Perfeito, me ajudou muito, análise específica e bem completa, obrigado.

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