quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Análise 39 - A Moreninha



Publicada originalmente em jornal, sob a forma de folhetim, essa obra de Joaquim Manuel de Macedo é considerada o primeiro romance da Literatura brasileira e alcançou de imediato grande popularidade junto aos leitores.

A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, foi o primeiro livro da Literatura brasileira a alcançar significativo êxito de público e é um dos marcos do Romantismo no país. Lançado em 1844, é considerado o primeiro romance do Brasil. Um ano antes, Teixeira e Sousa havia publicado O Filho do Pescador, apontado como o marco inicial da prosa romântica no país. A obra, entretanto, contava com uma trama pouco articulada e confusa, sem o necessário acabamento formal e a estrutura límpida que fariam o sucesso do romance de Macedo. 


Para lembrar
A história de amor entre Augusto e Carolina, com todas as suas peripécias, ilusões e final feliz, pode parecer ingênua e superficial nos dias de hoje. É importante perceber, porém, como nesta obra há procedimentos literários que permitiram a Machado de Assis, por exemplo, retratar, décadas depois, a complexidade inesgotável da alma humana.

A Moreninha, edição do início deste século.
A formação de um público leitor

Na primeira metade do século XIX, o Brasil passava por um fenômeno cultural que há muito já se observava na Europa: ao mesmo tempo em que crescia cada vez mais o número de leitores no país, verificava-se o surgimento de uma vida cultural na Corte brasileira. 
O conjunto desses acontecimentos era o resultado do gradual desenvolvimento das cidades, especialmente do Rio de Janeiro. 

O processo iniciou-se em 1808 com a vinda de D. João VI e da Família Real portuguesa ao Brasil e consolidou-se após a Proclamação da Independência em 1822. Como consequência, surgiram na capital do Império vários jornais e eles trouxeram uma novidade que já era sucesso nas grandes cidades europeias: o folhetim.

Do folhetim ao romance: surge um gênero literário

Todos os dias, os jornais publicavam histórias de leitura rápida e descompromissada, chamadas folhetins. Sempre que o enredo alcançava um momento culminante, o texto era interrompido propositadamente. Caso o leitor quisesse saber o desfecho da história, precisava comprar a edição do dia seguinte, em que seria publicada sua continuação. Muitas vezes, o sucesso comercial do jornal dependia dessa estratégia, uma vez que os leitores, curiosos pelo desenrolar dos fatos, se tornavam assíduos compradores dos periódicos. Dessa maneira, surgia o romance-folhetim que, aos poucos, incorporou as marcas do seu modo de publicação e as manteve, mesmo quando a obra completa saía impressa em livro.


Anote!
Inicialmente configurado como uma simples técnica de publicação de histórias, o folhetim alterou profundamente as características do romance enquanto gênero literário. Os fatos narrados passaram a ter mais destaque que a caracterização dos personagens e funcionavam como elos de uma cadeia vertiginosa de eventos.

Tanto A Moreninha como os outros romances de Joaquim Manuel de Macedo possuem as características do romance-folhetim, um gênero de narrativa que irá marcar definitivamente a história do romance brasileiro em seus primórdios.


Para lembrar
Muitas obras, diferentes entre si, continuarão a ser publicadas em jornais. Uma delas é o revolucionário Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis. Embora tenha surgido primeiro em folhetim, nada tem de folhetinesco, muito pelo contrário, é crítico em relação a esse tipo de romance. Outro exemplo é Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, que saiu pelo Jornal do Comércio em 1911 e só foi editado em livro quatro anos mais tarde.

Enredo

A história de A Moreninha gira em torno de uma aposta feita por quatro estudantes de Medicina da cidade do Rio de Janeiro do fim da primeira metade do século XIX. Um deles, Augusto, é tido pelos amigos como namorador incorrigível. Ele próprio garante aos colegas ser incapaz de amar uma mulher por mais de três dias. Um de seus amigos, Filipe, o convida juntamente com mais dois companheiros, Fabrício e Leopoldo, a passarem o fim de semana em uma ilha, na casa de sua avó, D. Ana. Ali também estarão duas primas e a irmã de Filipe, Carolina, mais conhecida como "Moreninha". Por causa da fama de namorador do colega, Filipe propõe-lhe um desafio: se a partir daquele final de semana Augusto se envolver sentimentalmente com alguma (e só uma!) mulher por no mínimo 15 dias, deverá escrever um romance no qual contará a história de seu primeiro amor duradouro. Apesar de Augusto garantir que não correrá esse risco, no final do livro ele está de casamento marcado com Carolina e o romance que deveria escrever já está pronto. Nas linhas finais da obra, o próprio Augusto nos informa seu título: "A Moreninha". 


Para lembrar
A Moreninha segue a estrutura típica do romance romântico: o herói supera todos os problemas para concretizar seu grande amor. Nesse caso, tal esquema é acrescido de um recurso literário relativamente incomum para a época: o uso da metalinguagem.

Metalinguagem

O livro não narra apenas o nascimento do romance (no sentido de caso amoroso) entre Augusto e Carolina. É também a história de sua própria criação enquanto romance, forma literária consagrada no Romantismo que pressupõe uma longa história em prosa, girando em torno dos desdobramentos de um enredo e envolvendo certo número de personagens.

Personagens

Como romance romântico surgido sob a forma de folhetim, A Moreninha apresenta personagens principais planos, simples, construídos superficialmente, embora essa caracterização funcione de modo a destacá-los do grupo a que pertencem.

Eles são sempre compostos de modo a tornar viável o que mais interessa nesse tipo de romance: a ação. 

Augusto → A figura de Augusto resume um certo tipo de estudante alegre, jovial, inteligente e namorador. Dotado de sólidos princípios morais, fez no início da adolescência um juramento amoroso que retardará a concretização de seu amor por Carolina. Esse impedimento de ordem moral permitirá o desenvolvimento de várias ações até que, ao final da história, Carolina revelará ser ela mesma a menina a quem o jovem Augusto jurara amor eterno.


Para lembrar
A caracterização de Augusto é feita por etapas, em um percurso que vai do social ao individual. No início do livro, seus colegas o vêem como romântico e inconstante, e ele próprio se reconhece como tal, alegando louvar o ideal de beleza feminina. Mais tarde, entretanto, Augusto confessa a D. Ana que sua inconstância é, na verdade, um modo de disfarçar sua fidelidade a um amor não-realizado

Loja de Rapé, cena do Rio antigo retratada por Debret em 1823.
Carolina
→ A caracterização física do personagem é significativa para a criação de um mito romântico genuinamente brasileiro: Carolina é muito jovem e "moreninha" (ou seja, morena, mas de um tom leve e agradável e não profundo e sedutor, como outras heroínas típicas da época). É também travessa, inteligente, astuta e persistente na obtenção de seus intentos. O retrato da protagonista atualiza e recicla um outro mito romântico que será recorrente na prosa de José de Alencar e na poesia de Gonçalves Dias: o índio brasileiro. Carolina encarna a jovem índia Ahy, que espera incansavelmente por seu amado Aoitin – uma antiga história da ilha que D. Ana conta a Augusto.

Anote!
Carolina tem, portanto, um lastro poético indianista refletindo a preocupação fundamental da literatura da época em criar e valorizar elementos culturais da jovem nação brasileira.

Personagens secundários

Compõem o quadro social necessário para colocar a história em movimento ou propiciar informações de certos dados essenciais à trama.

Anote!
Os personagens secundários representam, por meio de alguns tipos característicos, a sociedade burguesa da capital do Império. 

Os estudantes de Medicina, amigos de Augusto, são boêmios, alegres e mal se individualizam uns em relação aos outros. As mocinhas companheiras de Carolina são todas fúteis, faladeiras e vivem pensando em se casar. Há também as boas e respeitáveis senhoras, como D. Ana, e as boas, porém tediosas, senhoras, "daquelas que nas sociedades agarram num pobre homem, sentam-no ao pé de si e, maçando-o duas e três horas com enfadonhas e intermináveis dissertações, finalmente o largam, supondo que lhe têm feito grande honra e dado o maior prazer".

É o caso de D. Violante, que segurará Augusto, ávido por moças, em uma longa e cômica (pelo menos para a época) conversa sobre seus males de saúde. Essa função cômica também desempenhará o alemão Keblerc, mais amigo dos vinhos que das moças, responsável pela bebedeira da ama de Carolina, Paula.

Ilha de Paquetá, na Baía de Guanabara, possível cenário de A Moreninha.
Cenário


Toda a ação de A Moreninha concentra-se basicamente na paradisíaca ilha onde vivem D. Ana e sua neta Carolina. O início e o fim do romance incluem cenas que se passam na cidade onde moram Augusto e seus amigos.
Anote!
Tanto a ilha como a cidade não são nomeadas, embora sejam, respectivamente, a Ilha de Paquetá e a cidade do Rio de Janeiro. A ocultação dos nomes é um típico procedimento romântico. Visa esconder os dados reais, em busca de uma certa indeterminação, com o objetivo de excitar a imaginação do leitor.

A ilha

É descrita como o espaço propício ao bem-viver e à descoberta do amor. Nesse sentido, a pequena viagem por mar que Augusto faz até ela é significativa: o estudante deixa o espaço urbano e sua vida cotidiana para penetrar num espaço mais livre e belo, onde as flores são sempre brilhantes e viçosas, "graças à eterna primavera desta nossa boa Terra de Santa Cruz". É para lá que, terminado o fim de semana, Augusto ansiará por voltar, pois Carolina estará esperando-o, assim como a índia Ahy aguarda por Aoitin na lenda indígena.

O espaço urbano

O valor documental do livro em relação à sociedade da época se faz presente também na caracterização do espaço urbano. Isso se verifica, por exemplo, quando o narrador descreve o quarto de Augusto, no Capítulo II – "Fabrício em Apuros":

"É inútil descrever o quarto de um estudante. Aí nada se encontra de novo. Ao muito acharão uma estante, onde ele guarda os seus livros, um cabide, onde pendura a casaca, o moringue, o castiçal, a cama, uma, até duas canastras de roupa, o chapéu, a bengala, e a bacia; a mesa onde escreve e que só apresenta de recomendável a gaveta cheia de papéis, de cartas de família, de flores e fitinhas misteriosas; é pouco mais ou menos assim o quarto de Augusto."

Síntese

Pode-se ver nesses dois espaços, de certo modo opostos, a síntese que define o contexto histórico e social de nossa Literatura romântica: 

• O quarto do estudante nos lembra o Rio de Janeiro de então, a capital do Império que rapidamente se urbaniza e sofistica seus serviços (as faculdades, por exemplo, surgiram poucos anos antes da época em que o romance foi escrito) e sua vida social, fazendo aparecer uma burguesia consumidora, entre outras coisas, de Literatura. 
• A casa na ilha revela o olhar do escritor romântico, que busca na natureza brasileira, em suas cores e riquezas, o material poético capaz de legitimar, ainda que de forma idealizada, nossa identidade cultural.
Para lembrar
O sarau descrito no Capítulo XVI – "O Sarau" é o momento de reunião desses dois universos, pois trata-se de uma festa à moda da Corte... na ilha! O capítulo, além de ser ponto central da intriga amorosa, é um dos melhores registros da vida social da burguesia carioca da época.

Estilo e linguagem

O romance de Joaquim Manuel de Macedo é escrito numa linguagem ágil e viva, introduzindo o leitor diretamente no centro da ação. Um bom exemplo é o Capítulo I – "Aposta Imprudente", em que o diálogo entre os estudantes é reproduzido de modo quase teatral, praticamente sem interferências do narrador onisciente. Ao longo do texto, o narrador limita-se a conduzir o leitor pelos ambientes e pelo interior dos personagens, como no caso do Capítulo XIX – "Entremos nos Corações". Desse modo, faz o leitor acompanhar todas as ações. Algumas vezes comenta irônica e metalinguisticamente essa atitude, como o exemplo abaixo, retirado do Capítulo XV – "Um Dia em Quatro Palavras":


"São seis horas da manhã e todos dormem ainda a sono solto. Um autor pode entrar em toda parte e, pois... não. Não, alto lá! No gabinete das moças... não senhor; no dos rapazes ainda bem. A porta está aberta."

Macedo costuma ser econômico nos comentários e nas descrições. Repare nesse trecho do Capítulo XVI – "O Sarau": 


"Neste momento a orquestra assinalou o começo do sarau. É preciso antecipar que nos não vamos dar ao trabalho de descrever este; é um sarau como todos os outros [...]".

A linguagem, por sua vez, é sempre clara e simples, aproximando-se do coloquial e incorporando ditos populares (o título do Capítulo XVII, por exemplo, é "Foram Buscar Lã e Saíram Tosquiadas") ou brincando com termos eruditos (o título do Capítulo XIV é "Pedilúvio Sentimental").

Todos esses procedimentos fazem lembrar a pretendida e consciente adequação do texto a seu público leitor e reforçam seu caráter de entretenimento puro e descomprometido.

Estrutura da narrativa: a progressão e o flash-back

Se o narrador sabe conduzir o leitor pelos meandros da história sem perda de tempo, sabe também quando é necessário ceder sua voz aos personagens, a fim de retardar o fluxo narrativo. É o que acontece, por exemplo, no Capítulo II – "Fabrício em Apuros", quando é reproduzida na íntegra a longa carta de Fabrício a Augusto. Essa carta, além de conter informações essenciais da história, vale por uma autêntica aula (nem sempre desprovida de crítica e ironia) sobre o amor romântico.O mesmo narrador cede quatro capítulos (do VII ao X) para reproduzir não apenas a esclarecedora conversa entre Augusto e D. Ana na gruta, como também o texto da lírica balada cantada por Carolina. Nesses casos, percebe-se claramente a vocação do romance para incorporar, mesmo que de modo quase abrupto e artificial, outros gêneros literários, como a poesia lírica.

O caminho para o triunfo do amor

Após o idílico fim de semana na ilha, tudo caminha com as devidas e necessárias etapas preparatórias para um final bem-sucedido. São etapas que incluem a doce submissão amorosa e as árduas dificuldades que o amor terá de superar para se concretizar. Augusto, impedido pelo pai de ver sua amada, sofre irremediavelmente. Um médico é chamado e os dois mantêm o interessante diálogo:


"Augusto sujeitou-se com brandura ao exame necessário e quando o médico lhe perguntou: 
– O que sente?
Ele respondeu com toda fria segurança do
homem determinado:
– Eu amo.
– E mais nada?
– Oh! sr. doutor, julga isso pouco?"

Anote!
Embora esse diálogo exemplar antecipe todo o quadro espiritual da chamada segunda geração romântica com o seu "mal de amor" ou "mal do século", estamos aqui ainda no campo de um romantismo mais ameno e digerível: a "doença" de Augusto é apenas mais um impedimento temporário a ser superado.

Dois "romances" com final feliz

O triunfo final do amor vai gerar, de quebra, a criação da própria obra. Augusto, iniciado agora na genuína experiência amorosa, tornou-se também, por uma dessas "mágicas" ingênuas, mas de grande efeito, autor de romances.


Anote!
No Romantismo, a Literatura é sempre vista como expressão legítima de sentimentos interiores e só a vivência íntima e intensa do amor é condição para a criação literária.

Vida e obra

O pai de uma criança travessa e impertinente

No prefácio de A Moreninha, intitulado "Duas Palavras", Joaquim Manuel de Macedo pede aos leitores que sejam condescendentes com a própria obra, a qual sabe estar "cheia de irregularidades e defeitos". Para isso, elabora uma curiosa metáfora: para o autor, o livro é como um filho querido e Macedo, pai de primeira viagem, afirma que sua criança se revelou tão travessa e impertinente que não restou a ele outra alternativa a não ser depositá-la nas mãos do público. O autor pede perdão dos "senões, maus modos e leviandades", garantindo que seus outros três "filhos" terão educação mais severa. 

Sucesso literário

O público não só perdoou o "extremoso pai", como fez da sua primeira "cria" um dos maiores sucessos de toda a história da Literatura brasileira, consolidando de vez a plena aceitação do romance como gênero literário. A metáfora torna-se ainda mais curiosa quando sabemos que seu autor, embora casado, nunca teve filhos. Joaquim Manuel de Macedo nasceu em Itaboraí, pequena cidade do Rio de Janeiro, em 1820. Formou-se em Medicina, entretanto, nunca exerceu a profissão. Desde jovem, dedicou-se ao jornalismo. Embora não existam dados biográficos que confirmem, há a hipótese de que seu personagem Augusto, estudante de Medicina e candidato a escritor, tenha algum dado autobiográfico. A partir da fama obtida com seu primeiro romance, o autor dedicou-se à literatura pelo resto de sua vida, tendo publicado dezenas de obras, entre as quais se destacam os romances O Moço Loiro (1845) e A Luneta Mágica (1869).


Anote!
Macedo vivenciou um momento histórico particularmente decisivo para a Literatura brasileira, que procurava se firmar como arte autônoma e valorizável de uma nação recém-independente. Ligou-se a um grupo de escritores engajados nesse projeto, entre os quais Manuel de Araújo Porto Alegre e o poeta Gonçalves Dias, fundando com eles a revista literária Guanabara.

Durante muitos anos, exerceu o cargo de professor de Geografia e História do Brasil no tradicional Colégio Pedro II. Tornou-se amigo da família imperial e passou a servir de preceptor dos filhos da Princesa Isabel. Sua popularidade como figura pública da época lhe permitiu o acesso à carreira política, tornando-se deputado do Partido Liberal. Morreu em 1882, no Rio de Janeiro.

Fonte: http://vestibular.uol.com.br


4 comentários:

  1. Excelente material para pesquisa literária pois muito contribuiu para meus conhecimentos.Sou apaixonada pelos clássicos.

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  2. Respostas
    1. karacan te achei buu
      by Alejandra <3

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    2. Achei vcs duas aqui, mds akjsdha
      - Ana Clara

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