segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Análise 11 - Os Escravos


Publicada em 1883, doze anos após a morte de Castro Alves, a obra Os Escravos reúne suas composições antiescravagistas, entre elas, os famosos poemas abolicionistas 'O Navio Negreiro' e 'Vozes D'África'.

Castro Alves não foi o primeiro poeta romântico a tratar do tema da escravidão, mas nenhum outro se engajou tão veementemente à causa social e humanitária do abolicionismo quanto ele. Em seus versos, procurou ressaltar as implicações humanas da escravatura, adequando a sua eloquência condoreira à luta abolicionista. Retratou o escravo de modo romanticamente trágico, tentando despertar a sociedade – depois de três séculos de escravidão – para o que havia de mais desumano nesse regime. O maior exemplo desse retrato está em "A Cachoeira de Paulo Afonso", longo poema narrativo, escrito em 1870, pintado com fortes cores dramáticas, que conta a história de amor de dois escravos. 

Condoreirismo

Castro Alves foi o principal e mais popular representante do estilo romântico que predominou na poesia brasileira entre 1850 e 1870, denominado condoreiro por Capistrano de Abreu (1853-1927). 

É caracterizado por uma poesia retórica, em que se destacam os temas sociais e políticos, principalmente a defesa da abolição da escravatura e a apologia da República. 

De teor declamativo e pendor social, um dos símbolos mais frequentes do condoreirismo é a imagem do condor dos Andes – ave que representa a liberdade da América –, o que sugeriu a Capistrano de Abreu a denominação dada ao estilo. 

Para lembrar
Os poetas condoreiros foram influenciados diretamente pela poesia social de Victor Hugo – o condoreirismo é o hugoanismo brasileiro.


As marcas do estilo

Poucos poetas utilizaram, na Língua Portuguesa, tantas reticências, travessões e pontos de exclamação quanto Castro Alves. A cada página do livro, os exemplos se sucedem:


"Pesa-me a vida!... está deserto o Forum!
E o tédio!... o tédio!... que infernal ideia!"


Por meio desses recursos gráficos, o poeta procurava reproduzir a oralidade do discurso exaltado da praça pública ou das declamações nos palcos. As reticências apontam as pausas dramáticas que reforçam a ênfase discursiva marcada pelos pontos de exclamação. Os travessões têm dupla função. Às vezes aparecem, da mesma forma que as reticências, como marcas de pausa da elocução: 


"– Ave – te espera da lufada o açoite.
– Estrela – guia-te uma luz falaz.
– Aurora minha – só te aguarda a noite,
– Pobre inocente – já maldito estás."


Em muitos outros momentos, sinalizam o discurso direto, apresentando uma fala que se dirige a um interlocutor específico: 


"– "Olhai, Signora... além dessas cortinas,
O que vedes?..."
– "Eu vejo a imensidade!..."
– "E eu vejo... a Grécia... e sobre a plaga errante.
– Uma virgem chorando..."
– "É vossa amante?...,
– "Tu disseste-o, Condessa!" É a Liberdade!!!..."


Anote!
O estilo retórico condoreiro traduz-se na linguagem escrita por meio dos sinais de pontuação, como as reticências, os travessões e os pontos de exclamação. 


Ênfase social

Diferentemente dos seus predecessores, como Junqueira Freire e Álvares de Azevedo, Castro Alves projeta o drama interior do escritor (o eu), sua intensa contradição psicológica, sobre o mundo. Enquanto, para a geração anterior, o conflito faz o escritor voltar-se sobre si mesmo, pois a desarmonia é resultado das lutas internas (ultrarromantismo), para Castro Alves, são as lutas externas – do homem contra a sociedade, do oprimido contra o opressor – que provocam essa desarmonia. É outro modo de representar o conflito entre o Bem e o Mal, tão prezado pelos românticos. A poética deve, portanto, identificar-se profundamente com o ritmo da vida social e expressar o processo de busca da humanidade por redenção, justiça e liberdade.

Para lembrar
O poeta "condoreiro" tem um papel messiânico e afinado com seu momento histórico. Esse comprometimento faz a poesia se aproximar do discurso, incorporando a ênfase oratória e a eloquência.


Nos poemas de Os Escravos, a poesia é suplantada pelo discurso político grandiloquente e até verborrágico. Para atingir o alvo e persuadir o leitor e, muito mais, o ouvinte, o poeta abusa de antíteses e hipérboles e apresenta uma sucessão vertiginosa de metáforas que procuram traduzir a mesma ideia. A poesia é feita para ser declamada e o exagero das imagens é intencional, deliberado, para reforçar a ideia do poema. Os versos devem ressoar e traduzir o constante movimento de forças antagônicas, como se nota logo no primeiro poema, "O Século":



"O século é grande... No espaço

Há um drama de treva e luz.

Como o Cristo – a liberdade

Sangra no poste da cruz.

Um corvo escuro, anegrado,

Obumbra o manto azulado,
Das asas d'águia dos céus...
Arquejam peitos e frontes...
Nos lábios dos horizontes
Há um riso de luz... É Deus."

Gravura inglesa do século XIX mostra a violência das caçadas e do apresamento de negros na África. A mesma prática cruel repetiu-se no Brasil durante todo o período de escravidão.


Ou no célebre "O Navio Negreiro":  

"Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus...

Ó mar! por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!..."


Na obra de Castro Alves, a poesia perde terreno para a propaganda política. Pragmático, o poeta usa seus versos para levar o leitor à ação, para transformar, e não só para deleitar. Trata-se de uma arte engajada na divulgação das ideias sociais e políticas.


"Quebre-se o cetro do Papa,
Faça-se dele – uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
P'ra cobrir os ombros nus."


Convite à senzala

Para convencer o ouvinte e o leitor, Castro Alves convida-os a descer à senzala e conhecer o terrível drama humano que lá se encena.

"Leitor, se não tens desprezo
De vir descer às senzalas,
Trocar tapetes e salas
Por um alcouce cruel,
Vem comigo, mas... cuidado...
Que o teu vestido bordado
Não fique no chão manchado,
No chão do imundo bordel.
[...]
Vinde ver como rasgam-se as entranhas De uma raça de novos Prometeus,
Ai, vamos ver guilhotinadas almas
Da senzala nos vivos mausoléus"


E, assim, ao longo de Os Escravos e A Cachoeira de Paulo Afonso, o poeta apresenta ao leitor a vida do cativo, negro ou mestiço, sujeito à crueldade dos senhores, que arrancam os filhos dos braços das mães para os vender, estupram as mulheres, torturam e matam impunemente os "Homens simples, fortes, bravos.../ Hoje míseros escravos / Sem ar, sem luz, sem razão...". Para tanto, não hesita em explorar ao máximo as expressões que apelam aos sentimentos do leitor, abusando dos vocativos, das interpelações e das evocações, como em "Vozes D'África":


"Deus! Ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?..."

ou em "A Órfã na Sepultura":

"Mãe, minha voz já me assusta...
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra... desperta!...
Ou dá-me a mesma coberta,
Minha mãe... meu céu... meu Deus..."

ou, ainda, em "O Bandolim da Desgraça", de A Cachoeira de Paulo Afonso:



"Assim, Desgraça, quando tu, maldita!
As cordas d'alma delirante vibras...
Como os teus dedos espedaçam rijos
Uma por uma do infeliz as fibras!"


"O Navio Negreiro" 

Um dos mais conhecidos poemas da literatura brasileira, "O Navio Negreiro – Tragédia no Mar", foi concluído pelo poeta em São Paulo, em 1868 – quase 20 anos depois, portanto, da promulgação da Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico de escravos (4 de setembro de 1850). A proibição, no entanto, não vingou de todo, o que levou Castro Alves a se empenhar na denúncia do horror a que eram submetidos os africanos na cruel travessia oceânica. É preciso lembrar que, em média, menos da metade dos escravos embarcados nos navios negreiros completava a viagem com vida. Composto em seis partes, o poema alterna métricas variadas para obter o efeito rítmico mais adequado a cada situação retratada. Assim, inicia-se com versos decassílabos que representam, de forma claramente condoreira, a imensidão do mar e seu reflexo na vastidão dos céus:

",Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar – doirada borboleta –
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

,Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
– Constelações do líquido tesouro...

,Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...

,Stamos em pleno mar... Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas..."


Nos porões dos navios, negros escravizados são conduzidos para o Brasil. A viagem da África para a América era uma sucessão de horrores. Amontoados nos porões das embarcações, os africanos passavam fome e frio. Milhares morriam antes de chegar ao seu destino; não resistiam às doenças e à saudade de casa. Estes preferiam a morte no mar ao abandono na terra desconhecida


Anote!
O poema inicia-se com a supressão da vogal "E" inicial da palavra "Estamos", grafada "Stamos" para que o poeta forme um verso decassílabo.
É um recurso tipicamente romântico: a expressão suplanta o cuidado formal.


Eu lírico 

Na segunda parte do poema – composta em versos redondilhos maiores (heptassílabos) –, ao seguir o navio misterioso, pedindo emprestadas as asas do albatroz, o eu lírico escuta as canções vindas do mar. Ao se aproximar, na terceira parte, em versos alexandrinos, o eu lírico horroriza-se com a "cena infame e vil", descrita na quarta parte do poema, por meio de versos heterossílabos, alternando decassílabos e hexassílabos:


"Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!"

Mercado de escravos: apesar da proibição ao tráfico em 1831, esse comércio aviltante continuou livremente até por volta de 1850.

Na quinta parte, novamente em heptassílabos, o poeta faz um retrocesso temporal, descrevendo a vida livre dos africanos em sua terra. Cria, assim, um contraponto dramático com a situação dos escravos no navio. Na última estrofe, Castro Alves retoma os decassílabos do início para protestar com veemência contra a crueldade do tráfico de escravos:





"E existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pelago profundo! ...
Mas é infâmia de mais... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!"

Máscara de Metal que se Usa nos Negros que têm o Hábito de Comer Terra, aquarela sobre papel de Jean-Baptiste Debret.
Uma fonte alemã



O crítico Augusto Meyer apontou a influência do poema "Das Sklavenschiff" ("O Navio Negreiro", 1854), do poeta romântico alemão Heinrich Heine (1797-1856), sobre a obra homônima de Castro Alves. A leitura dos versos de Heine, traduzidos pelo mesmo Augusto Meyer, não deixa dúvidas quanto à influência sobre o escritor baiano. Tanto o segmento inicial do poema brasileiro quanto a dança macabra descrita na quarta parte são inegáveis recriações do original alemão: 


"Música! Música! A negrada
Suba logo para o convés!
Por gosto ou ao som da chibata
Batucará no bate-pés.

O céu estrelado é mais nítido
Lá na translucidez da altura.
Há um espreitar de olhos curiosos
Em cada estrela que fulgura

Elas vieram ver de mais perto
No mar alto, de quando em quando,
O fosforear das ardentias.
Quebra a onda, em marulho brando.

Atrita a rabeca o piloto
Sopra na flauta o cozinheiro,
Zabumba o grumete no bombo
E o cirurgião é o corneteiro.

A negrada, machos e fêmeas,
Aos gritos, aos pulos, aos trancos,
Gira e regira: a cada passo,
Os grilhões ritmam os arrancos

E saltam, volteiam com fúria incontida,
Mais de uma linda cativa
Lúbrica, enlaça o par desnudo –
Há gemidos, na roda viva."




A Cachoeira de Paulo Afonso"

Em 1876, sete anos antes da primeira publicação de Os Escravos, foi impressa uma edição isolada do poema "A Cachoeira de Paulo Afonso". Trazia o seguinte aposto: "Poema original brasileiro. Fragmento dos – Escravos – sob o título Manuscrito de Estênio". A partir de então, muitos editores têm publicado o poema em separado, como se não fizesse parte do livro Os Escravos. Nessa edição, no entanto, seguimos a lição de Afrânio Peixoto, organizador da edição de 1938 de As Obras Completas do poeta baiano, e publicamos o poema como continuação do livro. O próprio Afrânio Peixoto explica a opção:

" 'A Cachoeira de Paulo Afonso', fim do poema 'd'Os Escravos', é aludida em carta do poeta, de setembro de 67, em que diz que só lhes "falta a descrição da Cachoeira de Paulo Afonso". De passagem pelo Rio de Janeiro, no começo do ano seguinte, lê a José de Alencar 'A Cascata de Paulo Afonso': foi este, em certo momento, o título do poema. Parece que Castro Alves fez os últimos retoques no poema quando voltou do sul para o sertão da Bahia. Por isso, lhe pôs como data definitiva: fazenda 'Santa Isabel, 12 de julho de 1870 no Rosário do Orobó'."


Em 1876, teria edição à parte e, daí por diante, sempre assim, até a grande edição do Cinquentenário e esta de agora, em que é situada, definitivamente, no encerramento que Castro Alves planejou para Os Escravos. Esse poema bastaria para a glória de um grande poeta. Rui Barbosa, que lhe fez a primeira e admirável crítica, aponta os primores de descrição das paisagens e dos tipos rústicos e também mostra como "o poema do desespero do escravo deve ser esse. Ali a cólera troveja imprecações de uma grandeza bíblica; a ironia chispa como o aço de um estilete; cada frase traspassa os algozes como a ponta ervada de uma seta. Aquela fronte elevadamente humana fez-se de fera, para sacudir o vilipêndio imerecido; e aos lábios, contraídos por um amargor incomparável, crer-se-ia ver assomarem-lhe a cada palavra laivos de sangue do coração, mortalmente retalhado". De fato, a tragédia íntima da escravidão desenrola-se dolorosa e inconsolável no cenário estupendo de "A Cachoeira de Paulo Afonso", imenso palco, digno de tamanha dor humana. Esse complemento d'Os Escravos vale por outro poema. 

Vida e obra de Castro Alves
Antônio Frederico de Castro Alves nasce em 14 de março de 1847, na fazenda Cabaceiras, Curralinho – hoje Castro Alves –, na Bahia. Segundo filho de D. Clélia Brasília da Silva Castro e do Dr. Antônio José Alves, cursa Humanidades no Ginásio Baiano, onde já recita seus primeiros poemas. Sua mãe morre em 1859 e, em 1862, o jovem transfere-se para o Recife, a fim de ingressar na Faculdade de Direito. Na capital pernambucana, entusiasmado com as ideias liberais e abolicionistas dos jovens acadêmicos da época, dedica-se à poesia e ao desenho, freqüenta os teatros e começa a publicar seus versos na imprensa. Não consegue ingressar na faculdade em 1863, pois é reprovado no exame de Geometria. Nesse ano, além de estudar Geometria, publica seus primeiros versos abolicionistas, "A Canção do Africano", no número inaugural do jornal acadêmico A Primavera. Também conhece a atriz portuguesa Eugênia Câmara, dez anos mais velha, por quem se apaixonará, e apresenta os primeiros sinais de tuberculose.

Poesia versus academia

Castro Alves entra na Faculdade de Direito em 1864, onde se destaca mais pelos poemas recitados nos teatros e comícios estudantis, muitas vezes de improviso, do que pelo afinco nos estudos. Seu primeiro grande sucesso público acontece em 11 de agosto, data de abertura dos cursos jurídicos de 1865, quando recita "O Século" no salão de honra da faculdade. Nesse mesmo mês, começa a preparar o livro Os Escravos. Divide seu tempo entre a poesia libertária, as atividades acadêmicas e Idalina, companheira com quem vive em um bairro retirado do Recife. Nas férias de janeiro de 1866, visita seu pai doente na Bahia, que vem a morrer em 24 de janeiro. De volta ao Recife, funda, com Rui Barbosa, Augusto de Guimarães e outros colegas de curso, uma sociedade abolicionista, e lança o jornal de ideias A Luz, origem de sua polêmica pela imprensa com Tobias Barreto. Ainda em 1866, apaixona-se por Eugênia Câmara e vai morar com ela nos arredores da cidade. Traduz peças francesas e compõe o drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, especialmente para a amada. Em 1867, mudam-se para Salvador, onde encenam a peça com grande sucesso. Castro Alves dedica-se a terminar Os Escravos e cria "A Cachoeira de Paulo Afonso", poema que será o epílogo do livro. Nesse mesmo ano, escreve "Sub Tegmine Fagi" e outras poesias.

O poeta em São Paulo

Castro Alves, aos 20 anos: dividido entre a poesia, o teatro e sua grande paixão, a atriz Eugênia Câmara.

Disposto a terminar o curso de Direito em São Paulo e animado pelo sucesso da peça em Salvador, Castro Alves embarca, na companhia de Eugênia, para o sul, em fevereiro de 1868. De passagem pelo Rio de Janeiro, lê o seu drama e algumas poesias a José de Alencar, que depois o apresenta a Machado de Assis. Ambos ficam impressionados com seu talento e Machado o elogia publicamente no Correio Mercantil. No final de março, já morando em São Paulo, Castro Alves é recebido como ídolo pelos professores da faculdade, jornalistas, estudantes, políticos e senhoras da sociedade. Frequenta pouco a faculdade. Dedica-se a escrever poemas, como "Vozes D'África" e "O Navio Negreiro", a recitá-los e a preparar a representação do Gonzaga por Joaquim Augusto, o maior ator brasileiro da época, o que viria a se realizar com grande sucesso em outubro. O relacionamento com Eugênia Câmara, que já não vinha bem desde a Bahia, torna-se ainda mais conturbado: Eugênia retorna ao palco e as brigas se sucedem. Depois de rupturas e reconciliações, Eugênia abandona definitivamente o poeta em setembro, porém ainda representa sua peça em outubro. Angustiado e deprimido, Castro Alves pára de ler e escrever, somente passeia e vai à caça, ainda que não dispare nenhum tiro. Em 1o de novembro, sai mais uma vez para caçar no Brás, nos arredores da cidade e, ao saltar uma vala, a arma dispara e o tiro acerta-lhe o pé esquerdo. O ferimento infecciona e a tuberculose volta a se manifestar. Em 19 de maio de 1869, embarca para o Rio de Janeiro, onde, no começo de junho, seu pé é amputado, sem anestesia. A convalescença é lenta e dolorosa. 

De volta para Bahia

Em 25 de novembro, Castro Alves embarca para a Bahia, cercado de amigos e parentes. Durante a viagem, contemplando a esteira de espumas que forma o navio no mar, tem a ideia de reunir seus poemas num livro e lhe chamar de Espumas Flutuantes. A conselho médico, em fevereiro de 1870, vai para Curralinho, no sertão baiano e, depois, à Fazenda Santa Isabel, no Rosário do Orobó, onde termina "A Cachoeira de Paulo Afonso". A aparente melhora de saúde o faz retornar a Salvador em setembro. Em outubro, lança o livro Espumas Flutuantes. Em janeiro de 1871, ele ainda faz versos, como "A Violeta", que dirige à cantora Agnèse Trinci Murri, seu último amor, este platônico. No entanto, a doença se agrava. No dia 6 de julho de 1871, aos 24 anos, o "Poeta dos Escravos" morre junto a uma janela banhada de sol para onde fora levado de acordo com seu último desejo.


Fonte: http://vestibular.uol.com.br

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