segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Análise 06 - O Cortiço


Considerado o melhor romance naturalista da Literatura brasileira, o livro de Aluísio Azevedo traça um vasto painel da sociedade a partir do retrato impiedoso de um cortiço com seu variado leque de tipos urbanos.

No final do século XIX, estava na moda a ideia de que arte e ciência deveriam se unir no esforço comum de observar a natureza e compreender seus fenômenos. 

Essa concepção também estava presente na literatura. Baseados em pressupostos cientificistas, os autores tinham a ambição de demonstrar em seus textos os mecanismos deterministas do comportamento e do destino humanos. Essa mentalidade estética, que se opunha radicalmente à visão romântica de representação, é chamada Realismo/Naturalismo. A esse respeito, o romancista português Eça de Queirós escreveu: 

"É por meio desta laboriosa observação da realidade, desta investigação paciente da matéria viva [...] que se constroem as obras duradouras e fortes [...]. A nova musa é a ciência experimental dos fenômenos, fora disso o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade."


Naturalismo

A escola naturalista abusou de um vocabulário de rigor técnico e uma análise de cunho estritamente materialista a fim de estreitar ao máximo as relações entre arte e ciência. Uma das teorias que os autores buscavam demonstrar era a de que o espaço físico e o código genético influenciavam o comportamento humano. 

Para lembrar
Os romances naturalistas procuravam, por meio da representação literária, demonstrar teses extraídas de teorias científicas. Nesse sentido, o Naturalismo buscou compor um registro implacável da realidade, sem deixar de lado seus aspectos repugnantes e grotescos. 


No panorama da Literatura brasileira, Aluísio Azevedo é considerado um escritor exemplar do estilo naturalista e O Cortiço é sua obra-prima. Publicado em 1890, o livro não é uma ficção com preocupações sociais. Ele é uma obra de visão coletiva e traça um retrato implacável da sordidez e dos vícios humanos. 

O cortiço como protagonista

Pode-se considerar o próprio cortiço, com seus inúmeros personagens e intrigas, o protagonista do romance. Contudo, dentro desse painel em constante movimento, se destacam dois destinos: o de João Romão e o de Jerônimo. 

João Romão

Charge de Aluísio Azevedo divulgando o lançamento de Casa de Pensão, em 1884.
Após herdar uma pequena venda em um bairro operário do Rio de Janeiro, João Romão transforma-se em uma pessoa extremamente ambiciosa. Torna-se amante de Bertoleza, uma escrava para quem forja uma carta de alforria, e faz dela sua companheira e ajudante em seu projeto de enriquecer. Ambos trabalham e privam-se ao máximo. 

João Romão manda construir, em um terreno ao lado de sua venda, um agrupamento de casas populares com a intenção de alugá-las. Também se apropria de uma pedreira instalada nos fundos desse terreno. Os negócios tornam-se cada vez mais lucrativos e João Romão enriquece.

Não satisfeito, alimenta o sonho de ganhar títulos nobiliárquicos.Com isso, pretende igualar-se e, por fim, ultrapassar em glórias seu vizinho rival, o Miranda. Ao final, não tem escrúpulos ao se livrar de Bertoleza para se casar por interesse com Zulmira, filha de Miranda. 

Jerônimo

Em oposição à trajetória ascencional de João Romão, está o percurso de Jerônimo. Sério, trabalhador, exemplar pai de família, Jerônimo, após conhecer Rita Baiana, uma mulata sensual e provocante, torna-se um homem dominado pelos apelos sensuais. Abandona a esposa, Piedade de Jesus, trama e participa do assassinato de Firmo – ex-namorado de Rita –, gasta as economias de anos de trabalho e deixa de pagar a escola de sua filha, Senhorinha. Transforma-se, enfim, em algo muito próximo da imagem que se tem do malandro carioca. 

Personagens

Acabam por retratar o variado leque de tipos humanos descritos em O Cortiço. Um dos mais significativos é Pombinha, a "flor do cortiço", filha da lavadeira Isabel e noiva de João da Costa.

Muito estimada, conseguiu estudar antes de o pai morrer e, por isso, era quem escrevia cartas para os moradores da estalagem. Também os ajudava nas contas e a fazer leitura de cartas. Muito cedo, foi seduzida por Léonie, uma prostituta fina que não morava no cortiço. O episódio foi decisivo para o destino de Pombinha que, depois de um casamento fracassado, tornou-se prostituta e companheira de Léonie. 

Miranda

Dono de um negócio de tecidos, mudou-se com a família para um sobrado ao lado do cortiço de João Romão. Casado com Estela, desde que a flagrou em adultério passou a manter um casamento de aparência. Só não se separou da mulher porque ela ficaria com o controle de sua casa de comércio, pois ele comprou seu estabelecimento comercial com o dote de Estela. Devido à influência da mulher, alcançou o título de Barão de Freixal. 


Zulmira


Filha de Miranda e Estela, sofre por representar (em parte) o fruto dessa relação. O pai a detesta por acreditar que ela não é sua filha; a mãe não a suporta, pois supõe que a menina é filha de Miranda. Este vê com bons olhos o casamento de Zulmira com João Romão por causa das vantagens que isso poderá lhe trazer.


O meio influenciando a raça 

A obra transcorre em um espaço físico delimitado e descreve um grupo social definido. O objetivo do autor é demonstrar que o ambiente determina os comportamentos humanos.

Para lembrar
Em O Cortiço vê-se, por exemplo, o confronto de João Romão, um português pragmático e ambicioso, com um país tropical onde predominam a indolência e a sensualidade. Trata-se do embate da raça com o meio. 


As transformações pelas quais passam os portugueses João Romão e Jerônimo são fruto desse conflito. O primeiro, após enriquecer e por invejar seu vizinho rival, aristocratiza-se. 

O segundo declina moralmente ao ceder aos apelos de desejo carnal suscitados por Rita Baiana. 

Outros personagens também têm seus destinos intimamente vinculados ao meio em que vivem, como Pombinha, que se prostitui por influência de Léonie e, dentro de um movimento cíclico, levará à prostituição Senhorinha, filha de Jerônimo e Piedade 
de Jesus. 


Anote!
O clima quente dos trópicos é um elemento determinista no romance. Em várias passagens, o calor encontra-se vinculado ao comportamento dos personagens.

Repare como, no Capítulo I, o clima tem influência na formação do cortiço: 


"E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco."

Cena do filme O Cortiço, adaptado para o cinema por Francisco Ramalho Jr.

No Capítulo XVI, Piedade vê no calor a justificativa para o fato de seu marido, Jerônimo, estar seduzido por Rita Baiana:


"E nos seus movimentos de desespero, quando levantava para o céu os punhos fechados, dir-se-ia que não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquela amaldiçoada luz alucinadora, contra aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode."

O sol também é apontado como o responsável pelo confronto entre os moradores de cortiços rivais, descrito no Capítulo XVII:


"E no entanto o sol, único causador de tudo aquilo, desaparecia de todo nos limbos do horizonte [...]."

Plasticidade e sensorialismo

Antes de se tornar escritor, o autor pensava em ganhar a vida com a pintura. Ele chegou a declarar: "Fiz-me romancista, não por pendor, mas por me haver convencido da impossibilidade de seguir a minha vocação, que é a pintura. Quando escrevo, pinto mentalmente. Primeiro desenho os meus romances, depois redijo-os". Isso aparece em seu estilo.

Para lembrar
Um dos pontos estilísticos mais importantes em O Cortiço é a minuciosa descrição de ambientes e personagens, da qual emergem elementos perceptíveis pelos sentidos, para compor um quadro de sons, cores, cheiros e formas.

Em alguns casos, tais descrições adquirem um caráter decisivo para a narrativa, como no exemplo abaixo, extraído do Capítulo VII, em que a dança de Rita Baiana, combinada com sua voz e seu cheiro, vai provocar uma radical mudança de comportamento em Jerônimo:


"Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Rita [...] tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante."

Zoomorfismo e sensualidade

O Naturalismo manifesta grande interesse pelos instintos (principalmente o sexual), pois eles são encarados como determinantes de comportamento. Quando os personagens se deixam guiar pelos instintos, acabam sendo comparados aos animais. Tal técnica chama-se zoomorfismo e aparece com frequência em O Cortiço. Repare no exemplo abaixo, extraído do Capítulo X, em que é descrito o canto sensual de Rita Baiana:

"Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbedo de volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num desespero de luxúria que penetrava até ao tutano com línguas finíssimas de cobra."


Anote!
A zoomorfização dos habitantes do cortiço é um procedimento constante ao longo da obra e, apesar de estar muitas vezes ligada ao comportamento sexual, pode também servir para metaforizar ações vinculadas à tristeza, ao trabalho, à procriação. 

Abandonada pelo marido, Piedade é comparada, no Capítulo XVI, a um cão esperando pelo regresso de seu dono:


"E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe, [...] assentada à soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a hora em que saíra da sua terra [...]".


Aluísio Azevedo assim descreve no Capítulo I, os esforços empreendidos por João Romão e Bertoleza para enriquecer:

"[...] deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, [...] enganando os fregueses, roubando nos pesos e nas medidas, [...] trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio afinal a comprar uma boa parte da bela pedreira [...]".


O alto índice de natalidade no cortiço é narrado da seguinte maneira no Capítulo XIII:

"[...] e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador."


O cortiço aristocratiza-se

Se Jerônimo e João Romão, entre outros, sofrem ao longo do romance uma substancial transformação causada pelo meio, o cortiço em si também vai experimentar um processo de mutação semelhante ao de seu dono. 

Anote!
Assim como João Romão passa de modesto empregado de uma venda a rico negociante de aparência aristocrática, o cortiço também nasce, cresce vertiginosamente e, após sofrer um incêndio, é reconstruído de maneira a tornar-se uma honrada vila. Ou seja, como seu dono, o cortiço também se aristocratiza.


Dessa maneira, enquanto os moradores do local se zoomorfizam, o cortiço antropomorfiza-se, ou seja, ganha características humanas. Observe a abertura do Capítulo III, em que se personifica o ambiente: 

"Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo."

Evolucionismo social 

Ao analisar o livro, o crítico José de Nicola assinala que tanto João Romão quanto o cortiço são como máquinas que vivem de triturar gente: "O vendeiro se alimentou da negra Bertoleza, dos moradores do cortiço, das notas sujas do Libório, dos empregados da pedreira; agora, como capitalista, vai em busca de novas camadas sociais e prepara-se para tragar a família de Miranda. O cortiço se alimentou de pés-rapados; agora, a avenida [vila] vai em busca de novas camadas". Para o crítico, João Romão e o cortiço são casos exemplares do evolucionismo social, pois se assemelham a um organismo biológico em constante processo de evolução, passando de estágios mais primitivos para os mais complexos.

Anote!
A crítica tem apontado, nessa relação entre João Romão e o cortiço, o primeiro como metonímia do segundo, pois ambos passam por processos semelhantes de transformação. 


Vida e obra

Aluisio Azavedo
Um autor que vivia de seu ofício 

Graças à economia do algodão, São Luís do Maranhão tornou-se, no século XIX, grande centro de convergência de capital e de mão de obra escrava, que fizeram da cidade um pólo de prosperidade econômica e, consequentemente, cultural. 

De lá, surgiram nomes como Gonçalves Dias, Odorico Mendes, Graça Aranha, Coelho Neto, Sousândrade, Raimundo Correia e os irmãos Azevedo: Artur, o teatrólogo, e Aluísio, o romancista.

Escândalo social

Aluísio nasceu de um casamento que provocou escândalo na conservadora São Luís. Sua mãe, Emília Amália Pinto de Magalhães, por imposição familiar, viu-se obrigada a se casar, aos 17 anos, com um comerciante português de temperamento violento e intransigente. Inconformada, abandonou o lar e refugiou-se em casa de amigos, tornando-se uma mulher desprezada pelos moradores da cidade. Ao conhecer o vice-cônsul do governo português, o viúvo David Gonçalves de Azevedo, decidiu viver com ele sem se casar, provocando um escândalo na clerical e conservadora cidade de São Luís. Dessa união, nasceram cinco filhos, entre eles Artur e Aluísio Azevedo. 


Anote!
Aluísio nasceu em 1857, no mesmo ano da publicação de O Guarani, de José de Alencar, uma das obras máximas do nosso Romantismo brasileiro, e um ano depois de Gustave Flaubert publicar na França Madame Bovary, considerada a primeira obra realista da literatura.

Influências liberais

Caricatura dos irmãos Aluísio (à esquerda) e Artur Azevedo publicada na revista Frotzmac, no Rio de Janeiro.

Em 1876, com 19 anos, Aluísio transferiu-se para a Corte (onde já se encontrava seu irmão Artur) pensando em seguir o curso de Pintura na Imperial Academia de Belas-Artes. Acabou ingressando na imprensa como desenhista de charges. Na ocasião, o Rio de Janeiro era o centro das ideias liberais no Brasil, onde se discutiam o abolicionismo e a causa republicana a cada esquina. Aluísio conviveu nesse ambiente por dois anos. Em 1878, porém, viu-se obrigado a retornar a São Luís para cuidar do inventário do pai que falecera. Ao chegar à cidade, escandalizou a sociedade local com suas ideias liberais. Publicou, então, seu primeiro romance – Uma Lágrima de Mulher(1880) –, obra de inspiração romântica elogiada por seus conterrâneos. Por esse tempo, ajudou a lançar um periódico anticlerical, O Pensador, em cujas páginas encontravam-se provocações como "Pensar é o contrário de crer". Decisivo para Aluísio foi o contato, nessa época, com as obras de Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875) e 
O Primo Basílio (1878).

Escândalo literário

Em 1881, ao publicar O Mulato, obra apontada como o primeiro romance naturalista da Literatura brasileira, Aluísio Azevedo gerou um escândalo tão grande quanto o provocado por sua mãe anos atrás. A indignação foi tanta por parte da sociedade e da crítica que uma revista da época, porta-voz do clero conservador, mandou o escritor abandonar a Literatura e dedicar-se à agricultura: "À lavoura, meu estúpido! À lavoura! Precisamos de braços e não de prosas em romances! Isto sim é real. A agricultura felicita os indivíduos e enriquece os povos! À foice! E à enxada!". Nesse mesmo ano, com o dinheiro obtido com a venda de 2 mil exemplares de O Mulato, Aluísio deixou São Luís para instalar-se novamente na Corte.


Para lembrar
Aluísio Azevedo foi o primeiro escritor brasileiro a viver exclusivamente de seu ofício. Para isso, produziu romances de folhetim ao gosto romântico, obras que considerava "comerciais", e romances naturalistas, obras que considerava "artísticas". 

Academia Brasiliera de Letras

Depois de muito desgosto com a profissão de escritor, decidiu ingressar no serviço público. Prestou concurso para a carreira diplomática e, em 1896, após vários anos de intensa atividade literária, partiu para o exterior em sua nova função, abandonando definitivamente a Literatura. Em 1897, ao ser fundada a Academia Brasileira de Letras, Aluísio Azevedo foi escolhido para ocupar uma das cadeiras da entidade. O escritor morreu em 1913, aos 55 anos, em Buenos Aires, na Argentina, ao lado de Pastora Luquez, uma argentina com quem viveu seus últimos dez anos.

Fonte: http://vestibular.uol.com.br

5 comentários:

  1. Excelentes conteúdos! Adorei o blog! Está de parabéns!

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  2. Ótimo conteúdo colega Claudinei.
    Prof. Carlos

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  3. Tenho que elogiar o seu trabalho professor. Todos deveriam ver suas análises. São completas e de grande ajuda. Parabens pelo belo trabalho!

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