segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Análise 13 - Contos Novos - Mário de Andrade


Publicados postumamente, em 1947, os contos desta obra trazem personagens, espaços e tipo de trama reveladores de um Mário de Andrade que acreditava na produção cultural como denunciadora da realidade, sem perder suas características artísticas e estéticas.

Mário de Andrade foi um ativo participante da Semana de Arte Moderna de 1922. Nesse mesmo ano, publicou seu livro de poemas Paulicéia Desvairada que, com Amar, Verbo Intransitivo (1927) e Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter (1928), é uma de suas obras literárias mais conhecidas, além de marco do Modernismo. Sua produção, no entanto, é vasta e muito importante para a consolidação das experiências modernistas. 


Para lembrar
No que diz respeito à linguagem e à temática, o Modernismo pretendia construir um projeto nacional de produção intelectual autêntica.

O gênero conto e os Contos Novos

Apesar de Mário de Andrade defender a ideia de que conto "sempre será tudo aquilo que seu autor batizar com o nome de conto", podemos entender o conto como uma célula narrativa, um momento da vida, um fato essencial em torno do qual se desenrolam consequências de interesse para a composição desse mesmo fato. Diferentemente do romance, o conto não se constrói no encadeamento de eventos, cujas importâncias ora se equivalem, ora se complementam. 


Anote!
No conto, algo acontece intensamente e tudo o mais é causa ou consequência desse acontecimento-núcleo. Por isso, nesse gênero há uma grande força simbólica.


Em cada um dos Contos Novos encontramos eventos nucleares que estruturam e dão significado à narrativa. Cada espaço, cada personagem, cada ação se reporta ao fato central, que pode até ser banal, mas tem densidade justamente por causa da potência de sua simbologia. 


Alguns contos tiveram várias versões ao longo de 18 anos (1924-1942), registrando a maturidade de Mário de Andrade como escritor e como homem. A publicação póstuma trouxe nove dos doze contos previstos pelo autor. O respeito pelo homem comum e a fé na sua capacidade de trabalho e de criação parecem ter movido Mário de Andrade à confecção destas histórias.


Para lembrar
As nove tramas de Contos Novos compõem um projeto claro: olhar para o homem comum (anônimo) e para sua realidade. Em todos os contos, ocorre uma transformação importante dos cidadãos delineados. Ainda que sejam esmagados ou fracassem em suas tentativas de tomar consciência da crueza de sua realidade, os personagens tornam-se donos de um saber que antes não tinham.


Contos com narrador-personagem

Alguns contos apresentam o narrador em primeira pessoa. São compostos de muitos elementos autobiográficos e constituem uma sensível construção de memória, pessoal e coletiva. Na voz do narrador-personagem de "Vestida de Preto", "O Peru de Natal", "Frederico Paciência" e "Tempo da Camisolinha", as experiências mais íntimas são reveladoras de um padrão de comportamento social, com seus princípios e preconceitos.


Anote!
Ao olhar à sua volta, o narrador permite que o leitor compreenda uma época. A realidade histórica é apresentada criticamente, o drama de cada indivíduo tem ressonância na vida coletiva e representa a comunidade.


Narrador onisciente

Outros contos são construídos pela voz de um narrador explicitamente crítico, uma terceira pessoa onisciente. Aqui também a subjetividade é o instrumento de retrato dos personagens – o narrador analisa-os internamente, ao longo da trama. A densidade psicológica dá margem à construção da complexa rede social; cada indivíduo é responsável pela composição do todo.


Anote!
As situações narradas são mero pretexto para colocar os personagens em cena, pensando sobre si mesmos e sobre os outros, sentindo profundamente a vida, em seus aspectos mais alegres, mais tristes e indefiníveis...


Temas universais

Os cenários não são necessariamente brasileiros. São ruas, cidades, casas ou ambientes de trabalho que servem de palco para o que realmente interessa: as relações humanas que ali se estabelecem e que delineiam a progressão das tramas. 

• Os contos falam das angústias, das conquistas fugazes, dos dissabores que a existência humana prova.
• Acontecimentos prosaicos, que poderiam passar despercebidos, são redimensionados, ganham vulto e têm muita importância. 
• Os estudos psicanalíticos do autor aparecem nas entrelinhas, nas ações e nos desejos dos personagens, dando-lhes uma nova dimensão.
• As influências religiosas também estão presentes nos contos. Trata-se de um universo de símbolos cristãos que faziam parte da vida do autor e da sociedade brasileira daquela época.


O cenário cultural e político

O Modernismo é o grande pano de fundo de Contos Novos. A Semana de Arte Moderna de 1922 havia instaurado um tempo de agitação cultural no país. A palavra de ordem era mudar, experimentar formas, transformar a linguagem, transfigurá-la. Quase toda a produção cultural da época tinha esse caráter.

Anote!
O movimento Pau-Brasil de 1924, o Verde-Amarelismo de Plínio Salgado de 1926 e, mais tarde, a Antropofagia de Oswald de Andrade, além de uma série de correntes de produção literária, pictórica, dramática, musical, arquitetônica e mesmo de comportamentos sociais tinham em comum a criação de um espírito mais brasileiro, menos "importado", menos copiado dos modelos europeus.

Mário de Andrade, pastel de Anita Malfatti.

Mário de Andrade embarcou nessa movimentação, brincou com formas linguísticas  com a estrutura narrativa, com a construção de personagens como Macunaíma, "o herói sem caráter". Entretanto, não sucumbiu ao frenesi novidadeiro do primeiro momento do Modernismo. Preocupou-se com a pesquisa (folclórica e antropológica), com a construção de teorias, com a reflexão sobre os problemas brasileiros. Seu farto epistolário (um dos mais ricos entre autores brasileiros) confirma essa preocupação. 


Tensão política

Passados os primeiros anos da década de 20, cresce a tensão política no mundo. A polarização entre a extrema direita e a extrema esquerda torna o clima propício para iniciar a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, a fundação do Partido Comunista do Brasil, as Revoltas Tenentistas de 1922, a formação da Coluna Prestes em 1924, além de greves e reivindicações de algumas categorias são os reflexos do conturbado cenário mundial. Com a Revolução de 30, a oligarquia cafeeira, até então dona do poder, passou a viver em cordial aliança com a burguesia industrial dos centros urbanos.

Para lembrar
Nessa época de desencanto para uns e de desafio para outros, a necessidade de transformar o contexto tomava conta de muitos intelectuais e artistas brasileiros. Uma atitude fraterna e comunitária foi despertada dentre aqueles que, como Mário de Andrade, tinham preocupações humanitárias.

Temas sociais e cotidiano medíocre

Em "Primeiro de Maio" e "O Poço", a temática social aparece de forma mais contundente. Trabalhadores honestos vivem situações de opressão acintosas e vão descobrindo-se impotentes diante dela. Em "Vestida de Preto", algumas passagens que constroem o pano de fundo do conto revelam esse dilema:

"Aliás, um caso recente vinha se juntar ao insulto pra decidir de minha sorte. Nós seríamos até pobretões, comparando com a família de Maria, gente que até viajava na Europa. Pois pouco antes, os pais tinham feito um papel bem indecente, se opondo ao casamento duma filha com um rapaz diz-que pobre mas ótimo. Houvera rompimento de amizade, mal-estar na parentagem toda, o caso virara escândalo mastigado e remastigado nos comentários de hora de jantar. Tudo por causa do dinheiro."

O mesmo ocorre em "Tempo da Camisolinha": 

"O operário primeiro deu de ombros, português, bruto, bárbaro, longe de consentir na carícia da minha pergunta infantil. Mas estava com uns olhos tão tristes, o bigode caía tanto, desolado, que insisti no meu carinho e perguntei mais outra vez o que ele tinha. 'Má sorte' ele resmungou, mais a si mesmo que a mim."

• Nos outros contos, embora essas características também estejam presentes, o que está focalizado é o cotidiano medíocre, muitas vezes patético, dos grupos sociais menos favorecidos. 
• Em "O Ladrão", típicos personagens de bairro encontram-se e unem-se na perseguição de um ladrão que sequer existe. Esse acontecimento altera suas rotinas, proporcionando-lhes um momento de reunião festiva. • Em "Atrás da Catedral de Ruão", o personagem central – uma solitária imigrante que precisa trabalhar como preceptora para manter seu humilde padrão de vida – contrasta com os outros personagens a quem ela presta serviços, componentes de uma rica família, metida na política e em viagens pela Europa.
• Em "O Peru de Natal", a família classe-média prepara e consuma a ceia de Natal, unida e emocionada. 
• Em "Frederico Paciência", os dois amigos pertencem a grupos socioeconômicos diferentes – o que incomoda muito o narrador-personagem, pois é a sua família que tem menos posses. 
• Em "Nelson", pessoas simples se reúnem para beber e falar da vida dos outros, pois esse é seu único lazer.


A estrutura narrativa 

A experimentação, uma das características modernistas, também está presente nestes contos em que a linguagem é muito bem cuidada. 

Para lembrar
Mário de Andrade utiliza-se de várias expressões coloquiais e regionais, mas são regionalismos indefinidos, que se misturam sem associação direta com uma região específica, o que se chama de "desgeograficação" da linguagem – uma espécie de "língua brasileira".

Isso pode ser percebido em "O Poço", por exemplo: 


"– Você acabou o remédio?
– Inda tem um poucadinho, sim sinhô."


Tal cuidado revela-se também no registro de uma fala hesitante, espontânea, como se o pensamento estivesse se construindo ainda, sem certezas. 
A pontuação é emotiva, cheia de exclamações e de reticências, como em "Tempo da Camisolinha":


"Tó! que eu dizia, olhe! olhe bem! tó! olhe bastante mesmo! E empinava a barriguinha de quase me quebrar pra trás. 

Mas não sucedeu nada, eu bem imaginava que não sucedia nada..."


Esse recurso gera o efeito de naturalidade e é como se o leitor fosse ouvinte de um contador de casos que conta ao sabor das lembranças. 
As digressões aparecem em vários momentos, como em "Tempo da Camisolinha": 


"Guardo esta fotografia porque se ela não me perdoa do que tenho sido, ao menos me explica. Dou a impressão de uma monstruosidade insubordinada. Meu irmão, com seus oito anos é uma criança integral, olhar vazio de experiência, rosto rechonchudo e lisinho, sem caráter fixo, sem malícia, a própria imagem da infância. Eu, tão menor, tenho esse quê repulsivo do anão, pareço velho."

E também a metalinguagem em "Vestida de Preto": 


"Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade."


E nos contos em que a opinião não é dada pela voz de um narrador-personagem, o discurso indireto-livre é bastante explorado, como em "O Poço": 


"Joaquim Prestes berrava, fulo de raiva. O vigia que fosse tratar das vacas, deixasse de invencionice! Não pagava cachaça pra ninguém, não, seus imprestáveis! Não estava pra alimentar manha de cachaceiro!"


A construção dos personagens 

Os personagens são construídos no transcorrer da narração e vão ganhando densidade psicológica. O narrador-personagem mostra-se aos poucos, falando explicitamente de si mesmo ou se revelando na forma de narrar. 

Juca é o narrador dos contos em primeira pessoa, apesar de seu nome não aparecer em todos os quatro contos ("Vestida de Preto", "O Peru de Natal", "Frederico Paciência" e "Tempo da Camisolinha"). É possível, porém, perceber semelhanças inequívocas entre os narradores-personagens dessas histórias.


Anote!
Nesses quatro contos, os narradores-personagens são gauches, desajustados e, apesar de sofrerem com isso, de certa maneira gostam de ser assim. São serenamente subversivos, não atendem aos padrões de comportamento ditos adequados.


Assim, paulatinamente, também são construídos personagens como Maria, em "Vestida de Preto"; Mademoiselle, em "Atrás da Catedral de Ruão"; ou o misterioso senhor, 
em "Nelson".


Anote!
Mesmo em contos como "O Ladrão" ou "O Poço", em que há tipos e até estereótipos, não se trata de descrição superficial ou de caricatura. Os tipos transformam-se em elementos de uma coletividade. O grupo social é personagem.


Frederico, em "Frederico Paciência", e Joaquim Prestes, em "O Poço", embora sejam cuidadosamente descritos logo no início do texto, só têm seus perfis definitivamente estruturados no fim da história.

Espaço e tempo 

Em todos os contos, existe uma relação estreita entre espaço e tempo.

Anote!
Nos contos em primeira pessoa, vários espaços são sugeridos ou alguns de seus detalhes são descritos de modo a ajudar na caracterização dos personagens. O tempo que transcorre é de semanas ou de anos, numa organização linear, interrompida apenas por conjecturas do narrador. A relação entre os personagens ou deles consigo mesmos é mais importante que o uso que fazem do espaço.

Capa da primeira edição da revista Klaxon, porta-voz dos modernistas. São Paulo, maio de 1922.

• Em "Vestida de Preto", a descrição da casa de Maria, por exemplo, subsidia a caracterização desse personagem e de sua condição social: moça de família rica. A história desenrola-se por anos. É contada uma espécie de saga do amor entre ela e Juca.
• Em "O Peru de Natal", no transcorrer de alguns dias de preparação da inédita ceia, com direito a peru e duas farofas diferentes, a casa da família classe média é apenas sugerida em alguns elementos que nos ajudam a compor um cenário revelador da simplicidade poupadora em que viviam. 
• Em "Frederico Paciência", anos de amizade intensa e confusa são narrados e de novo conta-se a saga de um amor. A casa de Frederico é descrita em seus detalhes de riqueza, para opor sua condição à de Juca, vindo de família mais simples.
• Em "Tempo da Camisolinha", a casa de praia que foi alugada, com seus apetrechos característicos de família de classe média em férias, é palco para semanas de importantes experiências do narrador-personagem. 


Anote!
Nos contos em terceira pessoa, o espaço é ricamente desenhado: em lugares públicos, um evento perturbador se desenrola num curto período de tempo. As tramas não são lineares, pois ocorrem flash-backs que complementam as histórias em curso. A relação entre os personagens ou deles consigo mesmos depende de sua interação com o espaço.


Nos contos em primeira pessoa, vários espaços são sugeridos ou alguns de seus detalhes são descritos de modo a ajudar na caracterização dos personagens. O tempo que transcorre é de semanas ou de anos, numa organização linear, interrompida apenas por conjecturas do narrador.

Serão em casa de Mário de Andrade, óleo de Noemia, pintora do grupo dos modernistas.

• Em "O Ladrão", o bairro onde se dá a perseguição vai virando festa; frestas de luz tornam-se portas abertas que levam as pessoas à rua. Elas se encontram, conversam e assim uma inusitada madrugada escorre, interrompida pela manhã que chega com a obrigação do trabalho.
• Em "Primeiro de Maio", o personagem 35, trabalhador na Estação da Luz, passa a manhã toda e parte da tarde tentando festejar o Dia do Trabalho. Vaga por uma São Paulo sitiada, oprimida pela força política do Estado Novo.
•Em "Atrás da Catedral de Ruão", em meio a um maluco jogo de linguagens (francês e português mesclam-se e formam palavras novas), Mademoiselle e suas pupilas passam dias juntas, semanas até, mas parece que todo esse tempo o narrador está apenas nos preparando, caracterizando essa mulher que, no final do conto, aflita, vai viver um excitante perigo. 
• Em "O Poço", Joaquim Prestes e seus empregados, numa cinzenta manhã fria, vivem um jogo de poder tenebroso, cujo pretexto é a queda da caneta do patrão no fundo de um poço que estava sendo cavado. 
• Em "Nelson", é o aparecimento de um senhor estranho que leva os amigos de bar a contarem casos, especulando sobre a vida do homem misterioso. Remontam o passado dele, em anos de história, mas toda a narração dos "causos" se dá num fim de noite de sábado.


Vida e obra 
Um homem de seu tempo

Mário Raul de Morais Andrade nasceu no coração da cidade de São Paulo, na rua Aurora, em 9 de outubro de 1893. Sua vida foi intensa, sempre oscilou entre uma lucidez amarga e um encantamento profundo diante das coisas. 

Para lembrar
O contexto histórico em que Mário de Andrade viveu, o início do século XX, é marcado por uma crise do capitalismo, pelo surgimento de democracias de massa, por revoluções científicas e por uma crença eufórica no progresso tecnológico.


O Abaporu, de Tarsila do Amaral.
Uma das obras mais expressivas do Modernismo.


Movimentos como o Futurismo vinham exaltar a máquina e cultuar a velocidade. Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Cubismo, o Dadaísmo e o Surrealismo apareceram como reflexos dos horrores da guerra, em suas versões críticas ou bem-humoradas. 

No Brasil, vivia-se um entusiasmo com a chegada da modernidade à recente República, que já não se sustentava no trabalho escravo. Imigrantes, fugidos da Guerra ou de suas consequências, vinham trabalhar sobretudo nas lavouras de café e, em São Paulo, a mistura de culturas foi compondo um quadro cosmopolita, efervescente, que mudou o eixo das atenções no país, voltadas, até então, para o Rio de Janeiro. 

Um tempo de inquietação e dinamismo estava sendo configurado com o surgimento de fábricas (e consequentemente, organizações sindicais), telégrafo, telefone, automóveis, aviões, lâmpada elétrica, cinema etc. O sentimento de compromisso consigo mesmo e com essa realidade talvez explique o polígrafo Mário de Andrade.


Anote!
Mário foi poeta, ficcionista, crítico, historiador de Artes Plásticas, Música e Literatura. Estudou cinema, fotografia, viajou muito pelo país e pesquisou o folclore e a cultura popular. Encantou-se com a psicanálise num tempo em que os europeus a estavam estudando e, por aqui, ela ainda era algo muito sofisticado, ou seja, "para poucos".


Conhecido pelo projeto de democratização da cultura, teve atuação política expressiva em aulas abertas, palestras e muitas contribuições em jornais – embora não gostasse do meio político-literário.

Esteve à frente da Divisão de Expansão Cultural e do Departamento de Cultura, quando criou parques infantis, inaugurou a Discoteca Pública e projetou casas de cultura e a multiplicação de bibliotecas municipais. Um tempo difícil em que Mário de Andrade viu seus projetos conflitando com a situação vigente a partir de 1937, com o Estado Novo. A incompatibilidade de seus projetos com a gestão do prefeito de São Paulo, Prestes Maia, levou-o a se desligar do Departamento de Cultura e ao exílio no Rio de Janeiro – um período de angústia e de muita reflexão. 

O desânimo, porém, não o impediu de escrever. Desde a sua estreia, com Há uma Gota de Sangue em cada Poema (1917), Mário revelou a preocupação de colocar sua inteligência e sua sensibilidade a serviço do próximo. Suas tantas facetas e sua esperança no trabalho aparecem nestes versos, não raro utilizados como epígrafe de estudos sobre sua obra e sua vida: 


"Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, 

As sensações renascem de si mesmas sem repouso, Ôh Espelhos, Ôh Pirineus! Ôh Caiçaras! 

Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!"


Sem abandonar sua religiosidade (era católico), foi um entusiasta da sociologia marxista e, ao fim da vida, assistiu com repúdio ao nazismo, colocando-se mais veementemente a favor da arte compromissada e da liberdade de pensamento. Produziu intensamente entre 1943 e 1944, quando iniciou o célebre poema "Meditação sobre o Tietê", no qual, de certo modo, registrou o que lhe aconteceria: 


"Sou homem! Vencedor das mortes, bem nascido além dos dias, Transfigurado além das profecias."


Mário de Andrade transcendeu o movimento modernista que costumeiramente representa nos manuais didáticos. Morreu, de um enfarte do miocárdio, em 25 de fevereiro de 1945; sua palavra, porém, permanece.


Fonte: http://vestibular.uol.com.br

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